Indisciplina em meio escolar

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Indisciplina em meio escolar

 

Para uma definição do conceito de indisciplina escolar

(adaptado do texto de João da Silva Amado) - INDISCIPLINA E VIOLÊNCIA NA ESCOLA: CONCEITOS, INTERROGAÇÕES E RESPOSTAS

Em termos genéricos, e sem colocar à frente a diversidade de perspetivas disciplinares, ideológicas e idiossincráticas através das quais o problema tem sido analisado e o conceito definido, podemos afirmar que a noção de indisciplina escolar aponta para comportamentos que põem em causa a prossecução das tarefas e atividades de ensino­aprendizagem, o são convívio e o respeito por um conjunto de deveres sócio-morais, valores e padrões culturais que se considera deverem presidir às relações entre as pessoas no quadro institucional da escola e da aula.

Portanto, ao falar deste fenómeno, referimo-nos a comportamentos que, na sua essência, não passam de infrações a uma ordem normativa instituída, de natureza escolar (normas regulamentares, contratos explícitos ou implícitos), e a uma ordem ético-social comum (não escrita, consuetudinária, fluida) baseada em valores que supostamente presidem ao convívio entre pessoas em sociedade; ordens (normativa e ética) destinadas, portanto, a assegurar as condições de aprendizagem, a garantir a socialização dos alunos e a enquadrar as relações entre todos os atores no interior da instituição educativa (ESTRELA e AMADO, 2000; PRAIRAT, 2003; ESTRELA, 1986) (1)

Convém lembrar, que para que um comportamento seja, efetivamente, desviante é necessário que haja alguém que o julgue como tal.

 

 

Indisciplina versus Violência Delinquente

A violência delinquente, praticada por jovens (também violência juvenil) é, porém, mais do que tudo o que se disse sobre a violência na escola. O que diferencia a violência delinquente, praticada por jovens na escola ou fora dela, da violência na escola, é o facto de a gravidade daquela a fazer cair sob a alçada dos códigos penais, ultrapassando os limites da ordem normativa e da ordem ética.
Como abranger num único conceito de indisciplina escolar, comportamentos tão diferenciados nas situações que imediatamente os precedem, na expressão visível que adquirem, nos fatores (invisíveis) que preponderantemente os determinam, nas funções sociais (perante a turma e outros colegas), psicológicas (de resposta a necessidades do indivíduo) e pedagógicas (enquanto mensagem e pressão sobre quem tem o domínio das situações de aula ou da vivência escolar em geral) e, por certo, igualmente diferenciadas nas medidas suscetíveis de os prevenir e remediar.
Consideremos os diferentes níveis de indisciplina escolar:

Incumprimento de regras de trabalho: sem que, de uma forma frontal e direta se ponha em causa a pessoa do professor. Incluem-se neste caso, comportamentos de desvio às regras da comunicação verbal e não verbal (perturbação do ambiente, dificultando a consecução dos objetivos da aula), falta de material, falta de pontualidade, falta de assiduidade, etc. – um conjunto de comportamentos fora da tarefa;

Problemas que afetam as relações entre pares: cabem neste nível de indisciplina comportamentos que designamos por:

Confrontos com a pessoa e autoridade do professor, e com a autoridade em geral, no quadro da escola. A sua expressão é muito variada e nela incluímos dois tipos de comportamentos:

A violência na escola manifesta-se em comportamentos que têm a intenção de fazer sofrer física ou psicologicamente o outro (na relação entre alunos, na relação entre alunos e professores, etc.). A sua gravidade é variada, mas trata-se sempre de comportamentos inaceitáveis, que violam as regras do convívio e do respeito que devem presidir à relação entre pessoas; consideramos, pois, estes comportamentos como manifestações do fenómeno mais amplo da indisciplina escolar.

 

Resposta aos Problemas

Para problemas complexos, as respostas não podem ser simples e exigem implicações a vários níveis:

  1. Ao nível político, logo a começar pelo exemplo que deve ser dado na solução pacífica de políticas internas e externas; no respeito pelos cidadãos e pelo esforço coletivo e solidário na criação de condições de bem-estar geral; nas políticas educativas, concretamente, na criação de condições escolares adequadas, de autonomia das escolas, de formação de professores…;
  2. Ao nível social, a necessidade de uma comunidade educativa alargada, onde todos se empenhem no cumprimento do contrato social a todos os níveis, na solução pacífica de conflitos, na solidariedade e na justiça;
  3. Ao nível familiar, construindo um ambiente onde o diálogo prevaleça sobre o confronto, onde o permissivismo e o autoritarismo cedam à firmeza compreensiva, onde o abandono e o alheamento cedam ao cuidado e ao amor.

Mas centremo-nos na escola:

Ao primeiro nível e ao terceiro nível de indisciplina (que têm em comum implicarem alunos e professores) o que se pede fundamentalmente aos professores é que cumpram de forma plena aquilo que se espera, afinal, da sua ação: “que saibam ensinar e que saibam constranger com humanismo”. Na capacidade de ensinar, de levar o aluno a gostar de aprender, compreender e empreender, incluímos tudo o que disse sobre a estruturação das tarefas académicas e que releva do bom senso, da arte e, sobretudo, da formação técnica do professor); na capacidade de constranger com humanismo, isto é, de impor as atitudes e as práticas individuais e sociais indispensáveis à aprendizagem – de conteúdos, mas também de valores – sem afetar a dignidade do aluno, incluí tudo o que disse sobre a estrutura da participação social, ou seja, sobre as diferentes bases e formas de exercer a autoridade, o poder, mas também sobre os procedimentos que efetivamente promovem a interiorização e o respeito pela regra e pelas pessoas, e a vontade de cooperar e de ser solidário (AMADO, 2001, p.412) (3).

No segundo e no terceiro níveis de indisciplina, que têm em comum, nos seus casos extremos, o facto de degenerarem em violência, torna-se indispensável que o professor saiba promover, através das próprias atividade de ensino e aprendizagem:

E se o que dissemos tem a ver essencialmente com a aula (na relação professor-aluno), ao nível da escola (na colaboração dos professores entre si, com os alunos, equipas educativos, encarregados de educação e meio envolvente), muito há a fazer e que, além de levar a alcançar outros objetivos, pode aliviar a “tensão quotidiana” a que todos estão submetidos:

Os problemas na escola e o que fazer

Considerando as questões relacionadas com a indisciplina existente na escola, parece-nos lógico considerar e atuar neste sentido:

Assi, parece-nos adequado proceder de forma a que a Escola promova de forma clara e inequívoca uma cultura interna de rigor, exigência, cumprimento, solidariedade, responsabilidade cívica, integração participada e partilha comum em acordo com o PE e atuando em conformidade:


(1)  ESTRELA, M. T.; AMADO, J. Indisciplina, violência e delinquência na escola. Revista Portuguesa de Pedagogia, ano 34, n.1-3, p.249-271. 2000. ; PRAIRAT, E. Questions de discipline à l’école. Paris: Editions Érès, 2003 ; ESTRELA, M A. T. Une étude sur l’indiscipline en classe. Lisboa: INIC, 1986.

(2) RIGBY, K. New perspetives on bullying. London and Philadelphia: Jessica Kingsley Publishers, 2002; OLWEUS, D. Bullying at school: what we know and what we can do. Oxford: Blackwell, 1995;  SMITH, P.; SHARP, S. School bullying: insight and perspetives. London: Routledge, 1995; BESAG, V. Bullies and victims in schools. Philadelphia: Open University Press, 1991.

(3) AMADO, J. Interação pedagógica e indisciplina na aula. Porto: Edições ASA, 2001.

 

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